Electrolux, o governo Lula e as vacas de presépio.
A história da fábrica húngara que fechou por causa das leis trabalhistas brasileiras
16 de Agosto de 2026, praticamente véspera das eleições, encontrei no LinkedIn um post com a seguinte manchete: “Electrolux confirma fim de terceira fábrica e número de demissões chega a 2.700”. O post acompanhava uma imagem de onde o trecho foi extraído. Não precisei avançar muito pelos comentários para descobrir o que havia acontecido. Segundo os leitores, o fechamento era mais uma consequência da política econômica do governo Lula, dos impostos, de Fernando Haddad — ou “Taxad”, como exige o protocolo nesses casos — , dos sindicatos e até do excesso de ações trabalhistas movidas por trabalhadores brasileiros. Em poucos minutos de leitura dos comentários do post, encontrei não apenas os responsáveis pelas demissões, mas também análises razoavelmente elaboradas sobre as causas da desindustrialização brasileira.
Havia apenas um problema com todas essas explicações: as fábricas mencionadas na matéria não ficam no Brasil. Os cerca de 2.700 postos de trabalho envolvem operações da Electrolux na Hungria, no Chile e na Itália. A unidade húngara, especificamente, deverá encerrar sua produção até o final de 2026. Isso torna particularmente criativa a tese de que as ações trabalhistas brasileiras estariam entre as responsáveis pelo fechamento. Não duvido da capacidade de internacionalização das instituições brasileiras, mas imaginar que nossa Justiça do Trabalho já esteja fechando fábricas na Hungria talvez seja conceder a ela um alcance que nem seus maiores críticos ousariam reivindicar. Estava tudo lá no texto original do Jornal da Cidade online.
O que me chamou a atenção, entretanto, não foi encontrar uma informação falsa circulando pelas redes sociais, porque, rigorosamente, a informação não era falsa. A Electrolux realmente anunciou fechamentos e reestruturações, as demissões são reais e a matéria compartilhada relatava onde elas estavam acontecendo. Não havia sequer uma elaborada operação de desinformação que exigisse algum trabalho investigativo para ser desmontada. A informação necessária para perceber o erro estava diante de todos, na própria matéria que estava sendo comentada e compartilhada. Bastava lê-la.
É justamente aí que a história muda de patamar e, em vez de ser apenas mais uma discussão política sobre Lula, começa a ficar interessante. Algumas pessoas viram “Electrolux”, “fim de fábrica” e “2.700 demissões” e aparentemente essas três informações foram suficientes para completar todo o restante da história. Não sabiam ainda onde as fábricas estavam localizadas, quais razões haviam sido apresentadas pela empresa ou sequer se a Electrolux estava reduzindo suas operações no Brasil. Apesar disso, já conheciam as causas do acontecimento e, mais impressionante, sabiam quem eram os responsáveis por ele. Conseguiram descobrir o culpado antes de descobrir o crime.
Foi então que me lembrei de uma expressão que ouvia muito quando era mais jovem e que parece ter encontrado nas redes sociais seu ambiente natural: vaca de presépio. Chamávamos assim aquela pessoa que simplesmente balançava a cabeça concordando com tudo. A versão digital da vaca de presépio, entretanto, tornou-se muito mais sofisticada. Ela não precisa sequer receber uma afirmação completa com a qual concordar. Algumas palavras são suficientes para ativar uma narrativa já pronta. Se a pessoa acredita que o governo Lula está destruindo a economia brasileira, uma manchete contendo “fábrica”, “fechamento” e “demissões” encaixa-se perfeitamente no que ela já sabe que está acontecendo. Ler a matéria passa a ser desnecessário porque, de certa maneira, ela já conhece a história.
Talvez seja isso que mais tenha me incomodado nesse episódio. Não a crítica ao governo Lula. Não faço parte de fã-clube de político algum e acho particularmente estranha a ideia de transformar representantes eleitos em objetos de devoção. Lula, como qualquer governante, deve ter suas decisões criticadas e suas políticas confrontadas com seus resultados. O problema começa quando a necessidade de confirmar aquilo em que acreditamos se torna maior do que a necessidade de saber o que aconteceu. Nesse momento, os fatos deixam de produzir nossas conclusões e cedem espaço para que funcionem apenas como acessórios delas.
O caso da Electrolux chega a ser didático porque existe uma informação adicional bastante inconveniente para a narrativa construída nos comentários. Enquanto reorganiza operações e encerra unidades em outros países, a empresa fez recentemente no Brasil o movimento contrário: investiu cerca de R$ 700 milhões em uma nova fábrica em São José dos Pinhais, no Paraná, inaugurada em 2025. Naturalmente, isso também não demonstra que a política econômica de Lula seja boa. Seria intelectualmente desonesto usar a inauguração de uma fábrica como prova do sucesso do governo da mesma maneira que é desonesto utilizar o fechamento de uma fábrica húngara como prova de seu fracasso. Empresas multinacionais decidem onde produzir considerando custos, mercados, logística, produtividade, estratégia industrial e uma quantidade de fatores que não cabem numa conclusão partidária pronta.
Há, porém, algo especialmente revelador na facilidade com que a explicação apareceu antes dos fatos. Uma pessoa escreveu que esse tipo de fechamento estaria acontecendo há décadas porque ações trabalhistas e sindicatos aliados a maus trabalhadores estariam levando as empresas a abandonar o Brasil. É uma tese que poderia ser discutida. Poderíamos procurar dados sobre litigiosidade trabalhista, comparar o Brasil com outros países, analisar custos industriais e verificar se existe alguma relação mensurável entre esses fatores e decisões empresariais de investimento. Tudo isso seria perfeitamente legítimo. O curioso é utilizar como demonstração dessa tese o fechamento de uma fábrica localizada na Hungria. Nesse ponto já não estamos partindo de um acontecimento para tentar compreendê-lo. Estamos partindo de uma convicção e procurando qualquer acontecimento que possa ser encaixado nela.
As redes sociais tornam esse processo especialmente eficiente porque reduzem o intervalo entre receber uma informação e reagir a ela. A manchete chega acompanhada de uma oportunidade imediata de comentar, compartilhar e demonstrar pertencimento. Não é preciso terminar a leitura para participar da conversa e, muitas vezes, parece nem ser necessário começá-la. Quando a primeira interpretação coincide com aquilo que o grupo já acredita, ela é repetida pela segunda pessoa, reforçada pela terceira e ornamentada pela quarta. Em pouco tempo, a quantidade de pessoas concordando entre si começa a funcionar como substituto da verificação que ninguém fez.
Talvez seja essa a verdadeira vaca de presépio contemporânea. Não necessariamente alguém incapaz de pensar, mas alguém que, diante de uma informação que confirma suas convicções, conclui que pensar tornou-se dispensável. O movimento da cabeça vem antes da pergunta. E, uma vez iniciado, é muito fácil acompanhar o rebanho, principalmente quando todos ao redor parecem estar balando a cabeça na mesma direção.
No caso da Electrolux, como o post não trazia o link da matéria, o gesto menos trabalhoso acabou sendo justamente o mais óbvio: abrir a matéria — ou, no meu caso, pedir ao ChatGPT que encontrasse o link e a informação. Não seria necessário mudar de posição política, gostar de Lula, defender Haddad ou rever qualquer convicção sobre sindicatos, impostos ou legislação trabalhista. Seria necessário apenas descobrir onde estavam as fábricas antes de explicar por que elas fecharam.
Pode parecer uma exigência modesta. Pelos comentários, talvez já seja pedir demais. Em que momento abandonamos a leitura atenta e passamos apenas a balançar a cabeça diante daquilo em que já queríamos acreditar?
Texto do site Jornal da Cidade: https://www.jornaldacidadeonline.com.br/noticias/86295/electrolux-confirma-fim-de-terceira-fabrica-e-numero-de-demiss

