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março 15, 2026 por Régis Araújo

Ratinho Para Presidente!

Ratinho Para Presidente!
março 15, 2026 por Régis Araújo

O homem que não tem medo de dizer bobagem com pose de coragem

Menos de uma semana depois do Dia Internacional da Mulher, Ratinho resolveu dizer em voz alta o que muita gente pensa e, por isso mesmo, prefere fingir que não pensa. Em seu programa de TV ele disse que “Ela [Erika Hilton] é trans. Para ser mulher tem que ter útero, menstruar, tem que ficar chata três, quatro dias. Eu acho que deveria deixar uma mulher [ser presidente da comissao da mulher]…”. Portanto, sua definição de mulher é baseada em útero, menstruação e naquele velho estereótipo de que mulher “fica chata” em certos dias do mês. É o tipo de frase que consegue reunir transfobia, misoginia e ignorância num pacote só, ainda com pose de sinceridade.

O mais incômodo nem é o apresentador em si. Ratinho sempre operou nesse registro do sujeito que fala grosso, simplifica tudo e vende isso como autenticidade. O que incomoda é a quantidade de gente que ainda confunde preconceito com coragem. Como se dizer uma barbaridade sem filtro fosse sinal de independência intelectual. Não é. Muitas vezes é só falta de repertório, preguiça de pensar e a certeza confortável de que sempre vai haver plateia para aplaudir.

Uma coisa é discutir critérios jurídicos, representação política, linguagem e os limites da liberdade de expressão. Outra coisa, bem diferente, é reduzir mulher a útero, menstruação e caricatura para invalidar uma deputada trans. Isso não é debate qualificado. É só preconceito tentando passar pela porta da frente, de terno e gravata, como se fosse opinião respeitável.

E tem mais. Ao tentar atacar Erika Hilton, Ratinho não ofende só uma mulher trans. Ele também rebaixa a ideia de mulher em si. Porque, no raciocínio dele, mulher vira função biológica misturada com piadinha ruim sobre humor. Ou seja, ele não consegue ser preconceituoso de um jeito só. A frase é transfóbica e misógina ao mesmo tempo, e ainda vem embrulhada naquela velha fantasia do homem “autêntico”, o sujeito que supostamente fala o que os outros não têm coragem de falar.

Depois vem a parte que talvez diga mais sobre o país do que a fala do Ratinho. Você olha para o LinkedIn, uma rede que em tese deveria ter algum compromisso com civilidade e discernimento, e encontra gente tratando esse tipo de fala como “polêmica”, “opinião”, “verdade incômoda” ou “liberdade de expressão”. É aí que a coisa degrada de vez, porque não se trata mais apenas de um apresentador falando besteira. Trata-se de um monte de gente correndo para dar acabamento racional ao preconceito.

Eu sempre pensei no LinkedIn como o último bastião do bom senso, bem, pelo menos da performance do bom senso. Ali, muita gente aprendeu a dizer absurdos com foto profissional, cargo em inglês e pontuação impecável. Nessa rede os frequentadores nãoo xingam de forma aberta. Elas “ponderam”. “Trazem uma reflexão”. “Levantam um ponto”. “Dão suas ‘opiniões’” (o pior de todos, pra mim) E, nesse tom de falsa moderação, vai normalizando o que deveria causar constrangimento.

Foi isso que apareceu nos comentários. Gente tratando transfobia como se fosse apenas divergência de opinião. Gente chamando desrespeito de franqueza. Gente usando palavras como razão, verdade e equilíbrio para dar verniz de seriedade a uma recusa muito básica de reconhecer a humanidade do outro. No fundo, não querem discutir ideias. Querem apenas que seu preconceito receba o selo de opinião legítima.

O que me pega não é só o conteúdo dessas falas. É a naturalidade. É a tranquilidade com que certas pessoas escrevem esse tipo de coisa numa rede social profissional, como se estivessem comentando taxa de juros ou vaga de emprego. Como se reduzir alguém à caricatura fosse um detalhe menor. Como se ignorância pudesse ser confundida com firmeza.

Talvez por isso tanta gente hoje se veja como a pessoa que saiu da caverna e voltou para contar a verdade ao resto do mundo. Só que, em muitos casos, não saiu da caverna coisa nenhuma. Só mudou de parede. Continua olhando sombra, mas agora com a vantagem de ter encontrado uma plateia que chama aquilo de lucidez.

Ratinho não foi corajoso. Foi só grosseiro. E quem corre para defendê-lo como se estivesse defendendo liberdade ou bom senso não está elevando o debate. Está apenas tentando transformar preconceito em franqueza e intolerância em opinião respeitável.

No fim, talvez seja isso que mais assuste. Não a frase de um apresentador que vive de chamar atenção. Mas a quantidade de gente disposta a tratar esse tipo de fala como algo normal, aceitável e até admirável. A doença não está só em quem fala. Está também em quem escuta, concorda e ainda acha que está sendo razoável.

E o mais grave é que esse roteiro não é novo. O Brasil já comprou essa fantasia do homem que “fala o que pensa”, despreza mediação, humilha em público e chama isso de coragem. Já vimos essa encenação ser vendida como autenticidade, sinceridade e enfrentamento do politicamente correto. Sabemos muito bem onde isso pode dar. Quando grosseria vira virtude e preconceito passa a soar como prova de lucidez, o estrago não fica só na fala de um apresentador. Ele contamina o debate público, rebaixa a convivência e prepara terreno para coisas bem piores.

Quando o preconceito começa a ser confundido com coragem, quanto tempo falta para a barbárie voltar a parecer bom senso?

#Ratinho #Eleições #Transfobia #homofobia #filosofia

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Régis Araújo(https://canaldoregis.com.br)
Sou comediante, escritor, fotógrafo, orgulhoso membro da comunidade LGBTQIAP+ e, no restante do tempo, me aventuro no mundo da programação.

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Régis Araújo

Eu sou comediante, escritor, fotógrafo, do signo de libra e faço parte da comunidade LGBTQIAP+

Nas horas restantes eu sou um programador das antigas, literalmente, com mais de 30 anos de experiência.

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