O que um projeto recente de IA me mostrou sobre renovação, conhecimento e permanência na área técnica.
Se eu ainda continuo atuando na área técnica aos 55 anos, não é por inércia. É porque nunca parei de me renovar. Esse movimento começou em 1989 e segue até hoje. Na TI, isso acontece de forma especialmente rápida, se a pessoa para no tempo, vira memória. E memória, em termos tecnológicos, também serve como comparação para o quanto essa área muda o tempo todo. Já passamos por fita, disquete, Zip Drive, disco rígido, SSD, armazenamento em nuvem e seguimos inovando. Agora mesmo, a Microsoft já apresenta o Project Silica, com armazenamento em cubos de vidro projetados para durar 10.000 anos, ou pelo menos até aparecer algo mais moderno, confiável e barato. A tecnologia muda, o suporte muda, a lógica muda. Quem trabalha com isso e não se atualiza corre o risco de virar também uma peça de um formato ultrapassado.
Recentemente participei da arquitetura de uma solução de IA para um cliente corporativo nos Estados Unidos, o que também adiciona uma camada que, para mim, já faz parte da estrada desde 1996: pensar, conversar e desenhar solução em outro idioma, sem perder precisão técnica. Por razões óbvias de confidencialidade, não posso revelar o nome desse cliente, mas a dor era bastante clara.
A empresa precisava de uma forma mais confiável de orientar pessoas a partir de procedimentos internos já existentes, sem depender tanto de conhecimento informal, de interpretações soltas ou daquela lógica perigosa do “fala com fulano que ele sabe”.
À primeira vista, alguém poderia resumir isso como “criar um agente para responder perguntas”. Mas, como costuma acontecer em projeto sério, o desafio real não estava só no agente. Estava na qualidade, na organização e na confiabilidade da base de conhecimento que iria sustentar as respostas.
Foi aí que entrou a minha atuação. Meu papel nesse projeto foi o de arquiteto da solução, olhando para a estrutura completa e não apenas para a interface final. O agente principal dessa solução foi desenvolvido por mim, mas o trabalho não foi individual. Para endereçar melhor a questão da governança da informação, eu também agreguei à arquitetura dois outros agentes, criados por um colega de equipe, porque enxerguei o potencial de reuni-los dentro de um mesmo ecossistema de solução. O ponto não era somar ferramentas de forma solta, mas estruturar uma resposta em que a qualidade do conhecimento também fizesse parte da solução, e não apenas a camada final de consulta.
O agente principal foi concebido como um agente de conhecimento, com escopo controlado, focado em responder com base em conteúdo aprovado, sem inventar passos, donos, prazos ou exceções. Em outras palavras, um agente desenhado para orientar com segurança, e não para improvisar com confiança.
Só que esse tipo de solução traz uma verdade importante à tona. Quando a resposta não vem como o negócio espera, o problema nem sempre está na IA. Muitas vezes, o que aparece é um retrato bastante fiel da maturidade da documentação. Documento mal nomeado, conteúdo duplicado, versão antiga ainda encontrável, material salvo no lugar errado, tudo isso contamina a qualidade da resposta. A IA não cria essa bagunça. Ela apenas a expõe com mais velocidade.
Por isso, além da arquitetura do agente de conhecimento, eu também defendi uma visão mais ampla do ecossistema. Já existia uma solução, apresentada por um colega, voltada à padronização e formalização de SOPs. Eu não fui o responsável por criar esse agente específico, mas entendi que ele fazia sentido dentro da arquitetura recomendada. Não como acessório, mas como uma camada anterior. Primeiro se melhora o que entra na base. Depois se cobra precisão do agente que vai responder com base nela.
Para o cliente, os ganhos vão muito além de ter “mais um chatbot”. O valor está em melhorar a experiência de consulta, fortalecer treinamento e onboarding, reduzir dependência de conhecimento disperso, aumentar a consistência das orientações e construir uma base mais confiável. Quando a governança da informação entra no desenho da solução, o agente deixa de ser apenas uma interface simpática e passa a funcionar como parte de um modelo operacional mais sólido.
Para mim, o aprendizado reforçou algo que a prática já vinha ensinando há anos. Arquitetar uma solução com IA não é só decidir o que ela faz. É decidir o que ela não deve fazer, onde entra validação humana, o que precisa ser resolvido antes, e como impedir que um texto convincente esconda um processo mal documentado. Isso não é novo para mim. Ao longo da carreira, já trabalhei desenhando, desenvolvendo e implementando soluções. O que muda agora é o material com que estamos lidando. Antes eram outras camadas de tecnologia. Hoje, além disso, estamos lidando também com linguagem, contexto, risco e governança de conhecimento.
Talvez seja justamente por isso que eu continue aqui. Não porque a área tenha ficado mais fácil, nem porque o mercado seja gentil com quem envelhece. Mas porque sigo estudando, reaprendendo e tentando entender o que cada nova onda tecnológica realmente muda na prática. De 1989 para cá, muita coisa desapareceu, muita coisa surgiu, e eu continuo achando que o maior valor não está no deslumbramento com a ferramenta da vez. Está na capacidade de entender o problema real, dar forma a uma solução utilizável e separar inovação de improviso bem embalado.
Talvez continuar relevante em tecnologia tenha menos a ver com parecer novo e mais com continuar vivo intelectualmente. Se continuar relevante em tecnologia aos 55 anos exige renovação constante, estudo e disposição para não virar peça de museu, quantos profissionais estão preparados para continuar se renovando com o tempo, em vez de aceitar que a idade os transforme em obsolescência?
E, tão importante quanto a pergunta anterior, quantas áreas de RH ainda olham para quem já passou dos 40 como se já fosse dinossauro, quando muitas vezes são justamente essas pessoas que seguem estudando, se adaptando e entregando valor?
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