A resposta revela mais sobre nós do que sobre ele.
LinkedIn é uma rede social e, goste a gente ou não, política faz parte da vida das pessoas. Ela atravessa o trabalho, o salário, o preço da comida, a segurança, a cultura, a educação, a saúde mental e até a forma como a gente se relaciona com quem pensa diferente. Por isso, acho curioso quando alguém diz que não se deve falar de política por aqui. O problema, na maioria das vezes, não é falar de política, mas falar como se tudo fosse torcida, provocação ou guerra santa.
Esses dias, revisitando alguns textos antigos, encontrei uma reflexão que escrevi em 2018 dizendo que a política brasileira tinha virado um grande Fla x Flu em que ninguém ganhava e todos nós perdíamos. Na época, eu ainda tentava colocar as coisas numa balança. De um lado, políticas sociais importantes, mas acompanhadas por corrupção, fisiologismo e aquele velho “rouba, mas faz”. Do outro, um discurso de tolerância zero contra corruptos e bandidos, mas embalado por misoginia, homofobia, racismo, censura e um autoritarismo que muita gente preferia fingir que não via.
Eu nunca gostei de Lula, e isso não mudou completamente. Me incomoda o personalismo, a construção quase religiosa em torno da figura dele e a dificuldade que parte da esquerda tem de admitir críticas sem tratar qualquer discordância como traição. Quando a Lava Jato apareceu, confesso que também tive a sensação de que estávamos diante de uma virada histórica. Hoje, olhando para trás, vejo que havia ali muita coisa que também me incomoda profundamente, como vaidade, espetáculo, seletividade e gente usando a ideia de justiça como trampolim político.
Ao mesmo tempo, seria desonesto da minha parte ignorar o impacto positivo que os governos Lula tiveram para muita gente. Houve avanços reais no combate à pobreza, ampliação do acesso ao ensino superior, fortalecimento de políticas sociais e uma sensação concreta de inclusão para grupos que historicamente sempre estiveram à margem. Muita gente passou a ocupar espaços que antes pareciam inacessíveis. Mesmo sem concordar com várias escolhas políticas do PT, eu reconheço que esses governos tiveram importância para minorias e para pessoas que, pela primeira vez, sentiram que o Estado também olhava para elas.
Mas Bolsonaro me fez entender algo que eu ainda não tinha entendido em 2018. Nem todo estrago político é igual. Para mim, ele foi o primeiro presidente em várias categorias. O primeiro que me fez sentir vergonha constante. O primeiro que parecia alimentar o caos como método. O primeiro cuja crueldade parecia fazer parte da própria identidade pública. Foi, provavelmente, o presidente mais destrutivo que vi em vida.
E não digo isso como força de expressão. Está tudo gravado, disponível, repetido à exaustão para quem ainda tiver alguma disposição de lembrar. O deboche, a violência verbal, a forma como tratou a pandemia, a maneira como falava de adversários, minorias, jornalistas, mulheres, mortos e instituições. Não era apenas grosseria de estilo. Parecia haver ali uma pedagogia do ressentimento, uma autorização permanente para que o pior de muita gente deixasse de sentir vergonha de aparecer em público.
Sinceramente, tentei pensar em algum legado positivo de Bolsonaro para equilibrar essa reflexão, mas não consigo encontrar nada que, para mim, compense o dano institucional, humano e social que ele deixou. Mesmo medidas que seus apoiadores costumam defender acabaram quase sempre contaminadas por conflito permanente, desinformação ou pela incapacidade de construir qualquer senso mínimo de responsabilidade coletiva.
Lula me incomoda. Bolsonaro me assusta. E existe uma diferença enorme entre um líder que centraliza poder e um líder que normaliza crueldade. Isso não transforma Lula em santo, não transforma o PT em vítima inocente da história, não apaga corrupção, erros econômicos, alianças vergonhosas ou manipulação simbólica. Mas também não me obriga a fingir que tudo é equivalente só para parecer equilibrado.
Amadurecer politicamente, para mim, é continuar criticando quem nos incomoda sem precisar abraçar quem nos ameaça. Porque nem todo mundo que critica alguém que eu também critico defende os mesmos valores que eu. E nem todo mundo que parece concordar comigo em uma frase está, de fato, do meu lado.
A pergunta mais importante talvez seja outra. Em que momento a gente começou a tratar qualquer nuance como fraqueza e qualquer tentativa de reflexão como se fosse obrigação de escolher um lado sem pensar?
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